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Daniel Lago

Daniel Lago

Vigo(1979). Licenciado em Ciências Políticas pela USC. Secretario de programas e estudos políticos da Executiva Nacional de Compromiso por Galicia CxG.

Tay o robô que era “boa pessoa"

Publicada: 16/02/2017

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Tempo de lectura: 6 minutos e 43 segundos.

Muitos de nós temos guardado, nesse ponto que damos em chamar memoria coletiva, imagens de momentos de grande transcendência política, que foram transmitidos pela televisão. A comunicação política nos últimos 60 anos tem o seu modo de transmissão “natural” a través da TV. Mas isto está a dar tudo um giro “coperniciano”.

No nascimento das democracias liberais, os jornais; tanto burgueses, como proletários; fizeram de transmissores fundamentais das mensagens políticas. Se bem, a leitura, nessas alturas, era um bem escasso, e unicamente uma vanguarda tinha aceso aos jornais em papel. Os fins do século XIX vieram a auge da prensa escrita como monopolizadora da informação, embora não chegaram a toda a população.

Logo chegaria a radio-difusão; os agitados anos ´20 e ´30 do século XX, foram testemunhas de como a radio achegava as mensagens políticas aos mais diversos lugares. Os grandes fascismos, com a ajuda dos alto-falantes, entram por toda parte. Entramos de cheio na política de massas e nos médios de comunicação de massa.  

O cinema teria também a sua época dourada; no que a comunicação política refere-se. O começo da II Guerra Mundial marca o principio das melhores horas de propaganda política no grande ecrã. A comunicação política em grande formato, acompanhada de imagens e som, deu uma nova perspetiva, que seria posteriormente trasladada a essa janela indiscreta que será a TV, com a sua expansão em década dos '60. 

Criou-se um “nós” com memoria coletiva, onde as imagens retransmitidas eram a realidade. O debate Kennedy-Nixon de 26 de Setembro de 1960 marcou o inicio da telegenia na política. Não é suficiente com ter um programa político, com ter um dossier com o que explicar as políticas públicas; a partir deste momento, a comunicação não verbal e a aparência de espontaneidade, tornam em fatores decisivos na transmissão da mensagem política. 

Já agora, estamos numa outra dimensão da comunicação política, onde as redes sociais e a Internet são as plataformas principais de comunicação política. Umas plataformas que não resistem ao debate e nas que é difícil, muitas vezes, distinguir o “fake news”. Nas redes é fácil conseguir mobilizações: change.org, avaaz,.. o difícil é achar consensos que sirvam para trasladar à realidade. 

Ao tempo, nas redes sociais, o anonimato, provoca uma desaparição do centro político. Nas redes, uma grande maioria, extrema as suas posturas políticas. A prontidão das mensagens e a sua suposta espontaneidade, fez chegar a comunicação política para além dos mass media tradicionais, porem fica numa versão virtual da ação política. Mas neste mundo virtual, as posturas extremófilas ganham lugar e os robôs, finalmente, transladam mensagens nesta linha. 

Uma realidade pronto-a-vestir gerada a través de robôs. Nisto já é que está a novidade, a ultrapassagem do marco natural e humano das mensagens políticas, a mensagens criadas a través da “Big Data”. Uma multidão de mensagens políticas, criadas seguindo os diversos perfis de utentes, nas diversas redes e destinadas em exclusividade a eles mesmos a través de uma cada vez mais refinada canteira de dados. 

Tornamos a uma comunicação política que afasta das mensagens maciças, agora estes robôs; esses algoritmos e programas informáticos; recolhem dados nossos que são públicos nas redes sociais e criam mensagens dirigidos e segmentados, dirigidos na sua maior parte, em base a expectativas, que podemos dar em chamar eleitorais.

Lembramos aquele robô da Microsoft, a Tay, que no Twitter passou de ser uma “excelente pessoa” a mudar para um ser xenófobo e sexista em menos 24 horas. Deste modo, seguramente é que vai começar a funcionar a comunicação política no futuro. O racional está a ser substituído pelo irracional, o coletivo pelo individual e as democracias pelas autocracias. 

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