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Ingenieria Rodríguez

Daniel Lago

Daniel Lago

Nado em Vigo, no 1979. Licenciado em Ciências Políticas pela USC (1998-2003) especialidade em estudos políticos e relações internacionais. Cursou Estudos Europeus na Universidade Moderna de Porto. Empresário do sector financeiro e da gestão de riscos e a protecção financeira. Secretario de programas e estudos políticos da Executiva Nacional de Compromisso por Galiza. Membro do Conselho Nacional e Secretario Local de CxG em Vigo.

A ineficácia de certos rituais

Publicada: 26/10/2016

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Tempo de lectura: 13 minutos e 20 segundos.

O outro dia, saiam religiosamente, mexidos pela fé, gentes à rua em manifestação contra o TTIP. Contra do TTIP, o CETA e todo acordo transatlântico e que tenha cheirinho a Estados Unidos. Além do mais, da analise que poderíamos começar a fazer sobre a ineficácia de certos rituais, insisto em chamar a uma reflexão precisa sobre a necessidade de achegar posturas com a outra banda do mundo onde, mal que bem, a democracia dos direitos e liberdades vai funcionando.

É certamente, uma questão de mal menor para muitos, de minimizar danos, unicamente, como saída plausível a um momento onde a questão fiscal e a questão demográfica são problemas que atingem gravemente o futuro da Europa, além do incerto futuro do novo sistema internacional que vem-nos por cima. 

Poderíamos vir fazer uma serie de perguntas sobre tudo isto. Vou a tirar uma entrevista para a ocasião. A ver se o jornalista não é duro comigo. Vamos começar com o ritual da entrevista.

Que é o TTIP?

Mais que é que o TTIP é, como acordo de livre comercio entre os EUA e a UE, eu achegaria que o TTIP é principalmente uma harmonização jurídica e legal para facilitar o comercio, além de uma simples baixada de taxas, que já de próprias, são realmente baixas. Uma harmonização, que evita muitas das inseguridades jurídicas, que as PME, podem topar para a internacionalização das suas actividades. A dia de hoje, já existem múltiplas parcerias entre empresas, câmaras de comercio e grupos de empresários para levar os seus produtos e serviços a ambas beiras do Atlântico. 

Porém, neste momento os termos actuais nos que está a ser fixado o tratado não conquistam a nenhuma das partes. De momento, não será o legado da presidência Obama

Que consequências pode ter o TTIP?

Uma das consequências é a criação da maior zona comercial do mundo, logo da China, e a primeira por PIB. Além disto, cria-se uma zona geopolítica que fez fronte à expansão de economias que não apoiam num sistema político que poderíamos dar em chamar de poliarquia, dentro das coordenadas do respeito aos direitos humanos e da democracia representativa.

Neste marco, temos que entre os EUA e a UE, devemos criar, uma zona de progresso e liberdade no mundo. Já actualmente é a parte do globo onde o respeito, por exemplo, aos direitos médio-ambientais, supera com muito, aos de outras muitas economias do mundo, onde não falam, nem têm em conta, este tipo de externalidades, nem por parte dos governos, nem por parte das sociedades e as comunidades locais.

Como vai a afectar isto a Europa?

Disse que a Europa tem condições para levar os valores de empresas da economia sustentável ao sucesso. Dentro da chamada nova economia, os valores de empresas da agricultura orgânica, ou de empresas responsáveis socialmente com os valores da pós-modernidade das nossas sociedades: ambientalismo, feminismo, cultura para a paz, uso de energias renováveis, ou a procura de uma economia sustentável ; têm cada vez maior alargamento nos mercados e nas sociedades, tanto dos EUA e da UE. 

Os próprios consumidores, envolvidos num cambio de modelo de consumo e numa sociedade mais informada e mais consciente, podemos optar já por beneficiar a este tipo de empresas, procurando os seus serviços e produtos, nos mercados. 

No que tem a ver com os consumidores, vão a ter garantias de qualidade nos produtos?

Isto é mais do que evidente. O cambio de modelo de consumo, tem que levar, no que refere a produtos agrícolas e alimentares em geral, que é onde podemos perceber uma maior preocupação, a uma expansão numa nova revolução agrícola, com um caminho decidido cara uma agricultura de origem orgânica e sustentável. A Dinamarca, por exemplo, já tem fixado este objectivo para a sua agricultura por lei em 2015, com objecto de duplicar em 2020 as hectares de cultivo ecológicos.

Os consumidores, de cada vez, procuramos mais informação, melhor qualidade e garantias de controlo nos processos e na origem do que consumimos. Há uma maior cultura de consumo responsável. Forma parte do cambio cultural.

Já que então, isto vai levar ao fim da conquista cultural dos Estados Unidos face a Europa?

A cultura como conceito amplo civilizacional, poderíamos dizer que é a mesma dentro dos dois lados, já que ambos têm uma origem civilizacional comum, ambas partilhamos as origens greco-romanas e a expansão da cristandade. Logo, evidentemente, por debaixo deste máximo divisor comum, temos todo um mundo de mitos, de ritos e experiências muito diversas. Estamos ante, de jeito mais do que provável, ante o maior cambio cultural dos últimos séculos; as TIC´s e a revolução do Big Data estão a marcar este caminho.

Todo este mundo de experiências, na vez, amossa impossível essa conquista cultural. Agora, mais do que nunca, existem múltiplas sub-culturas dentro da mesma sociedade. Outro fenómeno será avaliar o facto cultural unicamente do lado do “establisment” ou do “mainstream”; nesse lado a partida já está jogada desde os concílios de Trento, esta-se a perceber, não é?

  Há possibilidades de que este acordo não chegue a aplicar-se? 

As possibilidades são reais no curto prazo, desde logo. Porém, não tanto no longo prazo, onde as sociedades; tanto da Europa como da América do Norte; olharão com grave preocupação o avanço de um mundo onde o seu modo de vida ira a ser reduzido de modo considerável. Este é o factor que pode chegar a consolidar esta aliança, que eu trato de ver como civilizacional e de defesa do mercado social. 

Isto vai a afectar à democracia?

Claramente, o avanço de modelos políticos autocráticos e a sua expansão económica no mundo, a través, as mais das vezes, de um modelo de “dumping” social, onde não se tem respeito algum pelos direitos humanos, nem pelo médio-ambiente, põe em perigo a estabilidade e seguridade das democracias. O avanço da China é sintomático disto, um estado ditatorial baixo o que vivem perto de 2.000 milhões de pessoas e onde, o respeito aos direitos humanos, não é, para nada, nenhuma prioridade para as autoridades. Por suposto, tampouco está na sua agenda nenhum controlo médio-ambiental sobre o seu desenvolvimento económico. Dos direitos dos trabalhadores já nem falamos. Não sei se estamos a perceber da realidade dos retrocessos dos sistemas democráticos no mundo actual, ainda que nominalmente muitos estados declarem que são democráticos, a realidade é bem distinta, e estamos ante uma onda de crescimento de regimes claramente autocráticos e ditatoriais.

Poderia ser a fim da democracia?

O novo estádio do capitalismo, na sua fase de capitalismo financeiro, tem como consequência, a nível mundial a maior concentração da riqueza da historia da humanidade, este processo, desde qualquer ponto de vista, é contrario à sustentabilidade dos sistemas democráticos e dos direitos e liberdades que partilhamos na actualidade. A democracia é um regime extremamente frágil, sujeito a vulnerabilidades e a constantes desafios. A maior parte da historia da humanidade, olhando para o passado, de facto, passou de longe de qualquer uma forma democrática de governo. A democracia representativa como sistema de governo é um fenómeno relativamente moderno e ligado intimamente a esta modernidade. 

Vai trazer alguma consequência positiva?

A aprovação do TTIP, dentro do mantimento de umas normas de respeito médio-ambientais, sociais e laborais é positivo para as sociedades beneficiadas pelo acordo. O livre comercio é uma das bases do progresso da humanidade. O TTIP para ser aprovado terá que fixar claramente o poder da UE para legislar sobre regulações de seguridade alimentar, normativa ambiental e o que venha referido aos direitos dos trabalhadores. Além disto, terá que fixar às claras a homologação europeia do sistema público de sanidade, como uma das linhas mestras para o bom sucesso do mesmo. Estes desde logo, são os maiores problemas para a sua necessária saída adiante.

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