Este mundo começa a cheirar a naftalina

Levamos tempo a tentar definir o novo fenómeno de ultra-dereitização da sociedade e com ela dos partidos políticos. A maior parte de nós, consciente ou sub-conscientemente falamos de um novo fascismo, de um neo-fascismo e de uma torna-volta aos fenómenos políticos da Europa dos anos `30 do século XX.

Esta discussão já a teve eu há mais de uma década com um professor de direito constitucional na universidade de Santiago. Claro esta, eu fizera uma introdução a não sei que pergunta numa das frequências finais onde qualificava de fascista ao regime político imposto pelo general Franco na Espanha. Ele, que no tempo era assessor do gabinete do presidente Aznar, chamou-me a «consultas» ao seu escritório na faculdade de direito.

Se calhar tinha eu o diagnóstico errado e não encaminhei bem a minha análise e ele sabia aquilo de quando lhe chamavam «democracia orgànica» a aquilo que se passava na Espanha das Leis Fundamentais e do Sindicato único.

Hoje em dia vemos um renascimento do que poderíamos dar em chamar pós-fascismo ou neo-fascismo. Nada mais para além disto, o novo conceito na ultra-direita tem mais a ver com uma volta ao tradicionalismo, às mais puras políticas reacionárias, mas que têm abandonado aquele principio que era da «revolução» e que tinham aqueles fascismos profundamente anti-capitalistas e anti-liberais. Hoje em dia a política neo-tradicionalista é uma política anti-globalização, misoginia, sexista e xenófoba e profundamente anti-política e anti-liberal. O Putin, sobre o qual levo tempos falando é a ponta de lança deste movimento mundial de volta a um espaço político e a umas sociedades em retrocesso no que refere ao sustimento dos direitos e liberdades que foram os eixos centrais dos avanços da democracia nos derradeiros três séculos.

E do Putin como líder carismático destas novas formas é que saiu um dos novos princípios ideológicos que agora espalham pelo mundo desde os novos movimentos da ultra-direita na Europa, até o trumpismo nos EUA, o neoconfucionismo na China, os AfD, Fronte Nacional e ultra-direitas variada e eurófoba na UE, ou o Bolsonaro no Brasil, temos por diante essa nova definição do «ethos» no neotradicionalismo. A sexualidade é entendida unicamente como heterossexual, o resto é contra o tradicionalismo. A nova ultra-direita mundial é profundamente homófoba, como ameaça do seu estilo de vida e que a globalização trouxe novas sexualidades que colidem com o homem branco e heterossexual. Claro, isto num mundo global é uma mensagem identitária fácil de levar e trasladar as diversas sociedades, num discurso político global. A xenofobia contra do que é de fora da nossa comunidade, entendida no mesmo «ethos» identitário de valores culturais tradicionais e presentes na ordem social anterior ao processo de globalização e do liberalismo político. O neotradicionalismo ergue como eixo fundamental e contra-revolucionário. Fronte aqueles fascismos que classificamos como profundamente revolucionários, no sentido revolucionário de rachar de base o sistema preexistente e criar um novo.

A ultra-direita alenta o ódio e alenta o medo. Mas a ultra-direita tem abandonado qualquer intento revolucionário próprio e característico dos fascismos e é que tornou basicamente sistémica dentro das democracias liberais representativas. A nova ultra-direita faz por procurar uma volta dos valores prévios às revoluções liberais, apoiando-se em muitas vezes numa chamada a favor do «medievalismo» mas convive num mundo tecnológico e aproveita as novas tecnologias para difundir a sua mensagem.

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